“The Empty Shell”

“Costumavam me chamar de oceano, se eu sou um oceano, acho que estou exatamente como quando o cara da bíblia separou os marés. De um lado, há aquele ‘eu’ do passado que só tinha uma coisa em mente durante um milhão de anos; no outro, está o ‘eu’ de agora, mais perdido que cego em tiroteio… Andando em uma corda bamba no abismo entre as Cataratas do Niágara, pendendo de um lado a outro… Um lado, mantém o pensamento de se estabilizar e continuar seguindo em frente. O outro, olha pra baixo e avalia a queda. Vai doer demais ou será instantâneo?!

A maioria das pessoas criou essa ilusão sobre mim… Que sou sociável, que tenho muitas amizades, que vivo sorrindo e sendo positiva quase metade do ano. Eles acham que a “doença” me desestabilizou, eles não entendem que tudo eram máscaras. Eu não sou sociável, sim, eu gosto de uma socialização de vez enquanto, mas não sempre. E bem mínima, por gentiliza, sem que eu precise falar muito. Prefiro ouvir a falar. Não, não tenho muitas amizades em que eu confie, conto nos dedos aqueles que chamo de amigos, e perdi as contas dos inúmeros passageiros que mais me fizeram sangrar que outra coisa. NUNCA fui uma pessoa positiva, posso não ser “negativa” 365 dias do ano, mas “positividade” não combina com a minha personalidade. “Não se apague!”, eles dizem. Quero rir pra não chorar… Me apegar? A quê? A quem? Se sempre sou deixada para trás, mais cedo ou mais tarde… Me apegar?! É quase uma piada interna, uma maldição.

Também não sou do tipo corajosa, nem sei porque acham que eu sou. Corajosos não levam uma vida inteira pra destruir as correntes que te prendem; não omitem o que pensam de verdade sobre determinadas coisas; não se calam quando querem gritar. Eu não sou corajosa, sou covarde, idiota e fraca. Nem sei porque as pessoas me acham assim tão maravilhosa… Pelo amor, nem sei como ainda tenho amigos! Eu sou aquela concha vazia na areia da praia, aquela que você passa e acha bonitinha, pensa em pegar para fazer uma coleção ou apenas deixa onde está, pra que mais uma como tantas outras, não é?!

Eu sou alguém que julgam que vive se prendendo ao passado, mal sabem eles.. Mal sabem eles que apenas me pego pensando em alguns momentos bons que vive.. De resto, mal lembro, mal penso, mal falo. E literalmente, há anos da minha vida que só sei que existiram porque me contaram… Eu não lembro deles. Não lembro de ter vivenciado aquilo. Na minha cabeça, não passa de um capítulo de um livro qualquer que li e dane-se! Mil anos atrás, alguém disse que – não só eu mas estamos falando de mim, então… – sou, de certa forma, amaldiçoada… Que as pessoas não aparecem na minha vida pra ficar, são passageiras, visitantes.. E que ‘infelizmente’ (ou não) isso também se enquadra pra quem eu viesse a gostar mais do que gostar. Eu sou um corvo, afinal? E sabe o destino triste dos corvos, eles só amam uma vez e para sempre.

Sabem porque não me questiono sobre a “maldição”? Porque é real. Tirando uma ou outra, a maioria das pessoas que conheci, elas se vão.. Ou logo, ou com desculpas, ou fazem merda ou só desaparecem.. Mas se vão. Uns se vão sem escolhas, como o tio que não quer morrer e morre… A avó que não quer partir e vai. Esses são exceção, de resto, eles se vão e não olham nem para trás. Eu deveria ligar? Fica quem quer… Eu não ligo, no meu normal, já me acostumei a ser ‘eu mesma contra o mundo’. E amores? amores é só ilusão. Bonitinho em filmes e livros, mas na real… quase uma piada. Nem me dá mais vontade de rir. Perdi as contas de quantos “eu gosto de você” ouvi para em seguinte, a pessoa desaparecer como fumaça, isso se eu tivesse sorte. Não faz parte da minha natureza ter isso.. Eu já ACEITEI essa porcaria de legado, maldição, destino ou como queiram chamar. Eu já tinha aceitado…

Quem peste vai imaginar que depois de uma vida inteira vivida, você “esbarra” em uma realidade alternativa com alguém que ‘gosta mais do que gostar’?! E importa?! Porcaria Nenhuma! Pra quê?! Pra que me apegar ou ligar pra isso, não vai servir de nada, como já bem sabemos… Não vai adiantar de nada. Mas o CORVO é BURRO e IDIOTA, ele sabe que isso é uma droga de uma ilusão… Ele se importa?! Claro que não! Corvo ESTÚPIDO! Ele pega essa merda inútil e protege mais que qualquer outra coisa que já protegeu na vida, porque isso faz ele se sentir um pouco mais vivo, um pouco menos amaldiçoado. Ele guarda isso no último reino, dos 9, que ele diz ter dentro de si. No mais profundo e inacessível. Ele guarda e se cala. Ele guarda e tenta fingir que aquilo não tá lá, só ‘visitando’ quando precisa de forças.

E o tempo vai passando… E lá no reino mais profundo a ‘coisa’ fica protegida até da imbecilidade do corvo, o que é ótimo! Nada mais é confiável em minhas mãos, nada mais. A mesma velocidade em que algo se forma, se destrói. Se minha cabeça já não é mais a mesma, imagina o resto de mim?! Transformei-me em um labirinto ambulante, onde todos os dias, tenho que percorrer alguns quilômetros dele para poder fazer a coisa mais simples do dia a dia. Às vezes, percorro distâncias sem me importar com elas… Outras, é exaustivo só me imaginar colocar o pé no chão. Ninguém vê, então, ninguém entende… Sinto-me a deriva, mas escondo bem que não está assim.. Eles veem a porta que a ‘Rose’ se segura, mas não veem o ‘Jack’ que se afoga ao lado. É exaustivo. E tem dias, como esses dias, no qual preciso ser forte por outros, e não posso me permitir sucumbir.. Não quero os olhares e a vigilância de volta… Então, ressuscito as máscaras.

Estou tentando coisas novas, mesmo com o ânimo de quem quer se enfiar na cama e dormir pelos próximos dois anos. Estou tentando todos os dias abrir meus olhos e não reclamar porque eles estão abertos olhando para a porcaria de lâmpada que nunca se apaga. Um passo de cada vez, um passo de tartaruga, infelizmente. Estou tentando, mesmo que parece que “tentar” é pior que respirar. Há uma dor dentro de mim que pesa meu peito quando respiro. Um misto de luto e maldição. Só porque me acostumei com todos indo embora, não significa que aprendi a não sofrer por isso. Ignoro quando posso, mas às vezes, simplesmente não consigo.

Sou um maldito corvo que se sente como uma concha vazia.. ‘Bonitinha e interessante’ por fora. Mas oca e amaldiçoada por dentro. Se me ver, ao andar pela sua praia, olhe de longe, não se aproxime e se vá.”

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