Como se diz “adeus”?!

“Não falo muito sobre minha vida passada, não falo sobre de onde vim, sou imortal e já vivi muito tempo, às vezes chego a esquecer que não pertenço ao mundo dos mortais. Esqueço que para eles, minha história não passa de folclores locais, mitologias e traços fantasiosos de um povo que já nem mais existe. O problema de ser imortal em um mundo de mortais, é que às vezes precisamos dizer ‘adeus’. E nem sempre, o adeus vem fácil… Há aqueles que dilaceram a sua alma e faz você querer trocar de lugar com que se vai.

Nuca fui alguém que aprendeu a dizer ‘adeus’, nunca precisei… Enquanto para os outros, as pessoas partem para sempre, por conta de quem sou filha, eu sempre os vejo novamente, mesmo que por uma fração de segundos. Ainda assim, há aqueles que ficam no underground por mais tempo. E por mais que devessem ir, continuo a vê-los. Sempre foi assim, por isso, nunca aprendi a dizer um adeus definitivo. Pessoas, mortais, próximos a mim… Eles ou alguém, me avisam, me deixam saber quando a hora chega. Sempre achei uma coisa meio inútil, saber e não poder fazer absolutamente nada para impedir. O sentimento de impotência é angustiante.

Acostumei-me tanto a ver essa hora chegar, que quando não vi, entrei em desespero. Não é possível que ele apenas tenha me mandado uma última mensagem e partido de vez, é?! Se eu não vi acontecer, significa que ele tá bem, né?! Se ninguém me perturbou com os sonhos, então ele não fez nada certo?! Quero acreditar nisso com todas as minhas forças, mas daí lembro que estou há dois dias sem dormir… Se não durmo, não sonho, e se não sonho, não vejo.. E agora, nunca mais o verei, pois estou no mundo dos mortais, e não posso correr pelos campos elísios para encontrá-lo.

Como se diz adeus para alguém que entrou na sua vida como uma bala perdida e que te fez acreditar que seria pra sempre?! O famoso lugar errado, hora errada… Foi assim que a gente se conheceu. Era pra eu estar aos braços de Morpheus, mas tive insônia, como sempre. Estava apenas de bobeira no Recanto, como quase sempre que o Filezin me acompanha nas madrugadas sem sono. Estava brincando com um de seus amigos, um que não parecia ter ido com a minha cara, quando ele brotou lá. Sentou em um canto, e apenas se concentrou em “matar” a própria irmã, e mesmo assim, era como se todos se conhecessem há mil anos.

Sabe quando parece que você passou muito tempo perdido até aquele momento? Até o momento que as pessoas a sua volta, meros estranhos, parecem que são seus amigos há mil anos? Foi um desses momentos. Quando a irmã dele foi embora, a atenção dele recaiu no resto de nósE eu, que não era ninguém naquele grupo, tive um holofote sobre minha cabeça. Não gosto de chamar mais atenção que o necessário, mas ele fez todo o possível para me arrancar do meu cantinho escuro. Quando se perde demais, você adquire o hábito de não querer mais perder, e o único jeito de evitar perder, é ‘não possuir’. Não fazer parte, não se deixar se aproximar novamente.

Mas aquela peste me puxou com seu humor e suas brincadeiras, e apesar de achar que nunca mais o veria novamente, no dia seguinte, lá estava ele. Ligados por um amigo em comum, eu que evitei contato com os mortais, me vi novamente no meio deles. De um grupo, de uma quase família… Segurança e temor, confiança e desespero. O sentimento de “pertencer” unido a preocupação constante, quase irracional, do medo pelo desconhecido, pelo que estar por vir. Ser a “newbie”, mesmo quando se é imortal, te deixa em desvantagens… Você chega e se sente deslocada.

Todos me acolheram, foi quase unânime, apesar de alguns equívocos iniciais.. Mas Hyo é como um irmão perdido, alguém que parecia flutuar sobre as ondas até alcançar a praia em que eu estava de pé. Hyo é meu amigo, companheiro de conversas aleatórias, ajudante de videos e meu cantinho secreto de confidências, tanto do meu lado quanto do dele. Não tenho o costume de me abrir de cara com as pessoas, não tenho o costume de confiar quase cegamente em alguém. Mas confiei nessa amizade, confiei, como todas as vezes que prometi não confiar, quebrei essa “promessa” a mim mesma.

Hyo é meu “parceiro de aventuras”, alguém que eu contava qualquer coisa sem medo, dividia todos os anos e loucuras presas em minha mente. Era alguém que me ouvia, mesmo sem saber o que dizer em resposta, e eu, acredito que fui alguém assim pra ele. Espero que eu tenha sido alguém que o fez feliz durante essas semanas em que esteve conosco. Como se diz adeus quando não se quer dizer?! Como se diz adeus, quando mesmo você sendo imortal, parece que está se afogando com o ar a sua volta?! Como se diz adeus à alguém que você esteve conversando há poucos minutos atrás?! Como se diz adeus?!

Ele me escreve, pede que eu seja feliz, que é seu último desejo… mas como posso ser feliz sem ele aqui?! Sem meu melhor amigo junto de mim! Depois de tanto tempo sem encontrar amigos que prestem, apenas me deparando com os mais traiçoeiros seres deste mundo… Quando eu já tinha desistido e nem pensava mais em me associar a alguém… Hyo surgiu junto com os outros. Trouxeram o vento e as risadas para os meus dias parados e mortos.. Eu, que sou imortal, já estava acostumada a agir como uma quase morta. Falando pouco, passando despercebida e ignorando ao máximo o contato com outros.

Sinto-me como se me afogasse no ar, em minhas lágrimas… Mal respiro, pois quando respiro meu peito dilacera, e mais lágrimas caem dos meus olhos. Escuto as músicas que ele gostava, lembro da ironia que eram as artes que ele tanto amava compartilhar, e choro por nunca poder contar à ele o quão destino isso era. Perdi minha chance de falar. Perdi meu amigo, e doi, doi na alma, doi como pequenas facadas. Pergunto-me se teria sido melhor ele apenas desaparecer sem dizer adeus… Como uma vez já fiz. Teria sido menos doloroso se ele sumisse como uma espuma no mar?! Seria menos doloroso não saber que eu precisava dizer ‘adeus’?!
Como se diz ‘adeus’, afinal?!

Você fez minhas semanas melhores: me distraiu, me animou, me obrigou a conversar, mesmo quando eu não queria desabafar; você foi (e vai continuar sendo) um irmão que nem tive tempo de chamar assim. Você foi minha bala perdida, mas se tornou meu bff em tão pouco tempo que só posso dizer: o segredo está na ironia sobre àquelas suas artes. Um segredo que ficará assim. Apenas espero que eu também tenha te feito feliz durante essas semanas… Espero que eu tenha feito alguma diferença e te trazido algo de bom.

Eu, imortal que sou, nunca aprendi dizer adeus.. E dessa vez, me recuso a dizer…
Vejo você por aí,
我爱你,弟弟!

Raven Slytherin


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