Sobre amores e envelopes

“Desde que me entendo por gente, escrevo. Não me recordo quando aprendi, não me recordo como ou porquê comecei. Apenas escrevo. Minha imaginação sempre foi ótima, até um pouco ativa demais, por assim dizer. Já escrevi histórias, crônicas, contos, letras de música e até me arrisquei em poemas… Os tipos variavam, o assunto mudava, mas o cérebro, nem tanto. Digo que comecei a escrever para afastar as ‘vozes’ que surgem para mim. Calar pensamentos muito altos. Motivos, tenho infinitos.

Quase sempre, não escrevo especificamente para alguém, a não ser a mim mesma. Algumas vezes, alguém se identifica e comenta, e quando são histórias, peço vez ou outra a opinião de algum amigo disponível no momento. Apenas tenho isso sabe? De querer escrever a maior parte do meu tempo, de precisar fazer isso, é como oxigênio para mim. Cada um tem seu modo de fugir do mundo, mas no meu caso, não fujo, me mantenho nele. Percorro frases e tento tirar os ‘barulhos’ dentro de mim que modificam minha harmonia. Às vezes, são textos sem conexão para muitos, às vezes, nem eu sei o que irá surgir…”

Recentemente estava vendo um filme sobre “cartas de amor”, e lembrei que costumava fazer isso, o lance de “cartas”. Quando era mais nova, enviava à primos que costumavam morar em outras cidades, já que nos víamos apenas em férias e celular era um luxo que poucos tinha. Lembro de uma época que escrevi para amigos que saíam do país em intercâmbio, nada de emails… Preferia o velho papel e caneta ou até cartões postais. Havia cerca magia em guardar num envelope, enviar e esperar a resposta do que você mandou. Gostava da sensação, da espera, do imaginar se quem recebesse iria gostar do que leu.

Mil anos depois – sou imortal, caso não saibam hahaha – retornei com isso das cartas. Minha mente perturbada me afastou do meu melhor modo de ‘exorcizar demônios’, passei muitos meses encarando telas ou páginas em branco, apenas para desligar ou queimar cadernos. Então, lembrei delas… cartas. Da sensação e sentimento que era destrinchar em um papel o que me vinha na cabeça: desabafos, histórias, lembranças, qualquer coisa que eu estivesse com interesse de compartilhar. Mas cartas precisam de um destino certo, em sua maioria, e essas, apenas essas, ganharam um tom mais pessoal.

Não são como as do filme que vi… Estão mais para “cartas de uma louca para um sã“, ainda assim, cada uma é diferente, cada uma tem sua particularidade, mesmo se são para o mesmo destino. Ao contrário de quando escrevia no passado, não espero respostas para essas… Apenas escrevo e mando. Só procuro saber se o envelope encontrou as mãos certas, e pronto. Ainda assim, acabei recebendo uma resposta, não precisava… Apesar que gostei e guardei com carinho. Há várias maneiras de ‘amar’ como descobri ao longo dos anos… E tenho certeza que nem todas as formas cheguei a sentir. Mas parando um pouco para refletir, percebo que escrevi “cartas de amor”.

Amor familiar aos meus primos; amor por amigos; e arrisco a dizer, que sim, cartas de amor do jeito “Peter Kavinsky“. Páginas que outra pessoa poderia ler e achar que não se trata de nada demais, onde você não ver um “querido” no inicio e muito menos um “com amor” no final. Ainda assim, as considero de uma maneira que apenas o destinatário sabe, cartas de amor. E dessas, também não espero respostas, não cobro nada e não espero nada. Ou melhor, espero… Espero que elas o ajudem em algo… Nem que seja uma distração de duas páginas.

Fiz de uma das minhas rotinas, sentar em minha mesa e escrever essas páginas… Um caderno em desuso e canetas em mãos, começo escrevendo sem pensar muito, apenas vai surgindo e quase sempre nem sei para quem vai ser… Escrevo até chegar ao fim e apenas quando as reviso, fica claro para quem deve ser. Desejo em silêncio que as mãos que abrem os envelopes desejem continuar os recebendo, nem sei se sabem o quanto é terapêutico esse processo para mim. Não sei se percebem através das minhas palavras o que estou tentando compartilhar, o verdadeiro significado daquela lembrança especifica quando se trata de alguma.

Não é todo mundo que consegue ler “meu livro”, tem que ser bastante observador pra isso, se ligar bastante no que eu falo, destrinchar todas as frases. Recentemente, descobri que tem alguém com esse poder.. De ler o “manual dos loucos” que se tornou a minha cabeça. Não vou mentir que fiquei um tanto chocada com esse fato, reli dez meses de conversa e todas as cartas que lembrei de scanner tentando encontrar onde exatamente essa pessoa percebeu certas coisas. Sinceramente, não descobri…

Por um lado fiquei pensando que, talvez, eu estivesse esperando que ele não subentendesse alguma indireta que mandei despercebida. Ao menos tempo, que esperava que ele entendesse… É possível isso?! O fato é que nem eu – agora, dez meses depois – consegui encontrar essas “indiretas”. Me pergunto como ele percebeu. Escrevo cartas de amor para esse alguém que diz me amar do jeito dele, às vezes fico rindo e pensando “E de que outro jeito você deveria me amar, criatura?! É claro que tem que ser do seu jeito!!” Não peço nada em troca, apenas que continue me aturando até ambos não estarem mais nesse mundo.

Cada vez mais ele se afasta do mundo, e cada vez mais me “grudo“, da maneira que posso com essa distância física entre nós. Então sim, ele me atura por todos os métodos existentes: virtual (wt), calls (e olhe que ele não gosta) e cartas… Sabemos muita coisa sobre nós, passamos por muita coisa também. Ele no mundo dele e eu no meu. Eu na minha loucura e ele tentando me ajudar. Ele sempre tenta me ajudar ^^ E eu, na maioria das vezes, tento não incomodá-lo tanto, mas acho que não estou fazendo um bom trabalho. Por isso, recorro as cartas, na esperança que ao menos elas, fazem o dia dele um pouco mais leve.

Um dia, talvez, ele nem leia as cartas quando elas cheguem em seu correio, as deixe fechadas em algum lugar ou no lixo, mas não me importa muito, como disse para ele, não peço nada em troca, de certa forma. Um dia… Pode ser que aconteça, pode ser que não.. Um dia.. Tento não pensar mais nisso… Nesse “um dia”, no futuro, tento apenas me importar com o hoje… Com as folhas, as canetas e os envelopes em cima da minha mesa. Escrevo e após escrever, cumprimento a quem devo cumprimentar: “Hey ^^”.

2 comentários sobre “Sobre amores e envelopes

  1. Que delicia de texto… comecei a ler porque o wp recomendou como semelhante a um texto meu e, quando li as primeiras frases, senti como se eu mesma tivesse escrito. Rs. Sinto exatamente isso Anna…. não sei quando comecei a escrever ou porquê, mas apenas fiz, por toda a vida. Apenas foi necessário. É necessário. E é como melhor me expresso. Sinto que não sei falar o que sinto, de uma form que faça sentido, se não for por escrito. Rs. Bons textos pra você. Sigamos!

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