O Limbo

“Deitado naquela cama que já deitou tantas vezes, ele parece preso num limbo, entre o presente e o passado, ou talvez, o contrário. É um tanto difícil de analisar no momento. Da mini caixa de som sai uma música discreta e suave, da janela se ouve o som dos carros e do mar… Não há silêncio, nem mesmo em sua mente. Tenta relaxar, logo, logo, o remédio fará efeito, e conseguirá dormir um sono sem sonhos, tranquilo… Não quer sonhos no momento, ultimamente eles tendem a acordá-lo na madrugada. Às vezes confuso, às vezes assustado, às vezes, quase sempre, perdido.

Sonhos que um dia se transformaram em escritos em um caderno velho, agora, ele os evita… Em sua mente não mais estável, eles andam ganhando formas. Ele os evita. Quase anseia por noites com sonos escuros e com acumulo de cores. Deita a cabeça no travesseiro quase “orando” por isso, se ele acreditasse que “orar” resolveria a questão, garanto que faria isso. Ultimamente, ele não lembra do que sonha, por vezes se sente aliviado, por vezes, triste. Sente-se nesse limbo… Sente como se perdesse uma parte de si. Sente como se não fosse ele mesmo…


(…) Acorda todos os dias no mesmo horário, quase nem mais precisa de um despertador, mas o usa do mesmo modo. Acorda naquele momento em que o sol ainda está preguiçoso, decidindo se quer ou não aparecer. Acorda, mas continua deitado até que o despertador toque. Algumas coisas, ele quer que pareçam como antes. Tocou, levantou. Nem um minuto antes, nem um minuto depois. Algumas coisas, quer acreditar que ainda possui o controle. Desliga o som irritante, come e toma o remédio da manhã. Banho gelado pra despertar e janela aberta para o vento entrar.

O mar o salda de longe, o sol está bem longe de seus olhos, acima do edifício possivelmente, ele espera, pelo menos. Continua não gostando desse astro luminoso demais, machuca seus olhos, piora sua visão. E problemas de visão é algo que ele já tem de sobra. Senta-se na cama e ler alguns capítulos de um novo livro ou escreve alguns textos malucos e cartas… Depende do dia, depende da vontade. Suas manhãs mudam, entretanto, sua única constância é o medicamento no mesmo horário. Diverte-se com as coisas de sempre, mas sente mais prazer nelas: seus livros, seus idiomas, suas músicas, seus textos, suas conversas com amigos.

Nunca está completamente sozinho, os olhos reais não permitem, lhe deram uma autonomia fingida, ainda assim, é melhor que nada. A torre tornou a virar um mero quarto, mas em alguns momentos, em pequenos momentos, quando ele menos espera, vê algo a espreita… Algo que o sufoca e o observa em silêncio. Ele finge que não percebe, ignora, volta a se distrair, tenta esquecer.
Algumas vezes, ele sente que voltou a usar máscaras. De tanto que as usou, mal conseguia saber quando estava usando uma ou não. Seu passado é cheio de máscaras, ele sabia distingui-las, os outros, não.

Pelo bem de alguém, por algumas horas, as máscaras voltam… E quando elas se vão, ele se pergunta se elas realmente se foram. Este sou eu ou ainda sou aquele que finjo ser?!, pergunta-se. Confia mais nas ações loucas do cachorro que nas suas. O cão parece saber mais sobre ele que ele mesmo. E hoje em dia, é assim que ele se sente, como se não conhecesse a si mesmo. Se é que um dia já conheceu. Seu “presente” tornou-se um limbo infinito… Mais perguntas que respostas, mas incertezas que certezas.

Um dia, ele foi na praia. Andou com os pés descalços e teve flashs de momentos passados em lugares como aquele. Ouviu vozes que já não existem mais nesse mundo. Perseguiu crianças que são adultos agora. As ondas vinham em sua direção, o convidando a entrar. Deixou as coisas sobre a sombra, caminhou sem pressa, sem lerdeza, sem pensar, num tempo só seu e do mar. Foi entrando até a água atingir a metade do seu corpo e mergulhou nas águas claras. Nadou por baixo das ondas e emergiu em outro ponto distante. Olhou para a praia alguns metros à frente, lembrou-se do macabro palhaço de um livro/filme e flutuou.

Nem o sol o incomodava naquele momento, seu corpo se movia a desejo das ondas, flutuando, indo para a direção que elas quisessem, enquanto, ele tentava não pensar em nada, tentava apenas está ali, naquele agora, naquele presente. Brisa, sol e mar… E um corpo que flutua sem pressa. Ao longe escuta pessoas que não conhece, músicas estranhas e o barulhos dos barcos que vem e vão. Poucas vezes ouve as aves que disputam os peixes com os pescadores. Abre os olhos só para se situar e volta a fechá-los, o sol o incomoda.

Corpos que nadam próximo a si o trazem para a realidade. O fazem lembrar que não está sozinho em uma praia aleatória flutuando. Afunda. Mergulha. Nada. Troca poucas palavras com quem o despertou do encanto e volta a mergulhar. Quer um pouco mais de espaço, mais distância dos olhos que o vigiam, dos ‘gaviões’ à beira da praia. Sabe que estão apenas preocupados, alertas a qualquer sinal, mas quer fingir que não os ver. Tudo retorna a “fingir” desde que chegou aqui.

Trouxe novas músicas em sua cabeça, novos olhos em seu rosto, tentou esvaziar a mente para preencher com apenas aquele momento, aquelas sensações, aqueles pequenos minutos flutuando. Ele já flutuou antes, no passado, mas dessa vez parece diferente… Sente-se capaz de flutuar por todo um oceano e jamais afundar. Não sabe o porquê dessa sensação, ou talvez, não queira pensar muito sobre isso, apenas estar.
Está em um limbo, mas vai aproveitar, transformá-lo em algum bom ao invés de outra ‘torre de marfim’.”

Um comentário sobre “O Limbo

  1. Mais perguntas que respostas, mas incertezas que certezas: gente que tem certeza demais de tudo, está mais perdido que todo mundo. Sempre tenha perguntas, sempre busque se entender, saber limites e ver quais pode ultrapassar. Repito: que seu quarto continue um quarto e jamais volte a ser torre.

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