A Torre de Marfim

Há um tempo atrás, imaginava-se livre ao mesmo tempo que preso em uma torre de marfim. Através de sua única janela, admirava as cores e possibilidades que não tinha coragem de ir atrás. Solitário, mesmo com pessoas ao seu redor. Encontrou uma paz silenciosa dentro de si mesmo, vestiu-se com máscaras que o protegiam do mundo lá fora. Sentia-se um prisioneiro e fez daquela sensação sua companhia constante. Sonhava com o dia que pularia daquele janela, estirando as asas contra o vento em direção ao horizonte que sumia de encontro ao mar; ou talvez, atingisse as águas quentes e desaparecesse na escuridão de tons verdes e azul. Aqueles tons que se mesclavam, lhe traziam esperança, medo e desejo.
E no final, nada além de um sonho…


(…) Anos e anos se passaram… Fez da janela sua “televisão”, um portal que via o mundo que não sentia que fizesse parte. Sentia o vento, via o oceano, sabia que ambos eram reais, e ainda assim, tinha vezes que não conseguia distinguir se realmente estavam ali do outro lado. Sua porta era aberta, mas mesmo em dias que estava “fora”, não se sentia livre de todas as correntes, elas continuavam ali, não se deixando serem esquecidas. Seriam elas apenas psicológicas ou também físicas? Há um mundo além do mar, há outros mundos, incontáveis dentro deste e outros universos… Será que um dia serei capaz de vê-los, se perguntava.
Ocasionalmente, a porta era aberta… Mas mesmo quando passava por ela, tremia. Ansiedade e medo eram seus companheiros no escuro. Suspeitava que havia uma armadilha ali, uma pegadinha… Uma tentativa de instigar a ‘rebeldia’ para apenas jogá-lo de volta na torre.

Tempo… Areias caindo em uma ampulheta…
Vivemos no “passado” ou no “presente” que já passou ou no “futuro” que está acontecendo?!
Tempo… Ele se perde entre acontecimentos…
Não importa como você o veja… Um dia ele passa, um dia ele te alcança, um dia portas e janelas desaparecem. Aquela torre… Não é mais uma torre, uma prisão.. É apenas um quarto vazio. E você não está mais preso à ele.
O mundo é grande… E você finalmente está nele.
Sente a brisa no rosto? Sente a água do mar no corpo?
Sente a areia roçando nos seus pés descalços?
Tempo… Eles dizem que tudo que você precisa é esperar por ‘ele’, o tempo.

O passado, o presente e o futuro se misturam… Após tantos anos de uma calmaria em meio ao caos.. Achava que a ‘torre’ tinha ficado para trás e que as correntes não existiam mais. Mas como seria possível se a torre e as correntes sempre estiveram em sua mente?! Como é possível que algo que nunca existiu no ‘plano da realidade’ deixasse de existir na realidade? Você não pode matar aquilo que já está morto!
A torre é só um quarto, ele repete para si. As correntes não estão aqui, ele repete como um mantra.
O caos o consome, as máscaras enfraquecem… Seu mundo de ilusões se desmancha como uma bolha de sabão. O medo não é a solidão, ele gosta. O medo não são as sombras, ele as ama. O medo é todo o resto…
Aquela realidade que ele fingiu ignorar por tantos anos, àqueles a quem ele tentou fugir para longe…
Um dos medos o encara de volta quando ele passa em frente ao espelho pouco iluminado, ele sorri, debocha, provoca, instiga… O reflexo reflete a parte escondida de todos. Pule, é o que ‘ele’ diz.

Sabe aquelas vozes que você achou controlar? O barulho que pensou conseguir silenciar?
Bem, eles mostram que você nunca esteve no comando, nunca passou de um mero fantoche.
Eles gritam mais alto que você. Eles o veem na beira do penhasco. Você sabe o que eles querem. Eles não precisam dizer. É o que você quer também, afinal. Silêncio.
Você pensa no mar que via da torre que não existe, lembra-se das cores que se misturavam no horizonte… Vê faces que conhece e desconhecem. Pensa se deveria escrever uma última vez, mas não escreve. Num piscar, recorda-se que há pessoas longe que não saberiam se algo acontecesse…
Cartas seriam melhor, mas não há endereços.
Silêncio e gritos. Apenas se calem!, ele implora.
Escreve, escreve, escreve e espera que eles não vejam tão cedo. Espera que eles sigam o ‘padrão’ e que estejam dormindo… Um fio de ‘esperança’ à beira do abismo.

Silêncio.
A quilômetros do mar, e ainda sente o cheiro dele… a brisa de maresia embaçando seus óculos…
seu corpo boia na água salgada… Silêncio em meio ao caos, aos gritos.
Pula e o abismo lhe abraça. O abismo lhe cumprimenta como um velho amigo.
Abra as asas, voe! Ou nade na escuridão! Apenas venha!, é o que ele diz.

Tempo… As estrelas que vemos hoje, algumas já morreram há milhões de anos.
Vemos estrelas mortas em nosso presente. Somos seus futuros não vividos. Somos passado, presente e futuro. Somos uma combinação de caos ambulante e que respira.
Fechamos os olhos um dia pensando em nunca mais os abrir, mas descobrimos que não é bem assim.
Tempo… As vozes irreais dão lugar as reais.
O abismo parece mais iluminado que o normal… Não era pra ser assim, ele pensa indignado.
Achava que não merecia estar ali, achava que não merecia aquelas pessoas, achava que não merecia ser salvo. Por quê?!, é a pergunta que se repete. Por que mesmo quando ele não acredita em si mesmo, vocês acreditam?!, pergunta em sua mente.

Tempo e muitas perguntas. Ele percebe que hoje há muitas perguntas.
Nunca foi alguém que tendesse ao medo, mas hoje, tem medo dessas respostas.
Para alguém que não ‘sentia’ medo, é normal?! Ele não sabe mais o que é ‘normal’.
Normalidade existe mesmo, ou é só um idealismo?!
Ele não quer ser normal, quer apenas restaurar sua paz…
Os olhos antes imaginários, são reais agora. Ele se incomoda com eles. Mas eles o ignoram, há certas coisas que nunca mudam, principalmente se não é você quem pode mudá-los.
Ele sente que a realidade atual é mutável, às vezes parece estar sobre seu controle, às vezes não.
Ainda há silêncio, ainda há caos, ainda há o cheiro do mar…
Mas não há o incomodo de antes, não sempre, pelo menos.

Então, um dia, ele descobre que vai ter que voltar àquela ‘torre de marfim’.
Já é tempo, eles dizem. ‘Tempo’. Tempo pra quem?!, ele quer perguntar.
No caminho, ele está ansioso, suando, agoniado, quer saltar daquele carro e correr quilômetros para a segurança do seu quarto. Fecha os olhos, coloca a música no máximo e finge que está indo para outro lugar. Cada vez mais perto, sente a brisa da maresia, sente o cheiro do mar, real dessa vez… Sorri ansioso, sorri com medo, sorri, enquanto pensa em fugir.
Quanto tempo, como está?, cumprimenta a praia como se falasse com uma velha amiga.
Treme durante todo o percurso, andares acima, o velho elevador que o leva até o topo. Apenas quando as portas abrem, nota que havia prendido a respiração. Vê o botão para descer, e pensa se ainda tem tempo de ir embora. Alguém pega suas malas e a chance se desfaz como uma fumaça ao vento. Respira fundo, lembra que para alguns, as máscaras ainda existem, dá um passo de casa vez, entra.

A porta da torre está aberta, gasta, com sinais de um dia ter tido algum pôster grudado. Ele não se lembra qual era… Foram tantos. Dá mais um passo, joga as malas em um canto. A janela está aberta, o vento bagunça seus cabelos e as ondas do mar preenchem o silêncio. As paredes continuam iguais e ainda assim, há algo diferente. Aos poucos, enquanto a luz entra, a ‘torre’ transforma-se… Deixa de ser uma prisão, torna-se um quarto… Um simples quarto. Um quarto sem correntes, sem grades, sem opressão. Ele respira, lembra o quanto foi tolo… Isso aqui é real, repete para si mesmo. Isso é o real!
Respira. Aos poucos o medo se vai, a ansiedade diminui. Talvez agora que esteja tudo mudado, as coisas não sejam mais como antes… Talvez, ele pensa, ele espera sem esperar. E dentro do que um dia foi uma torre de marfim, surge, enfim, alguma esperança.”

(continua)

Até a próxima!
Bye bye!

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